Enquanto outros dormiam, a Maria Antónia cuidava

Pretende-se salientar a importância de um sistema de auxílio sénior numa Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI). O texto abaixo é ficção, mas pode ser a história de um dia de vida de uma auxiliar de geriatria.

Fui desafiada a escrever sobre cuidados seniores, como não é bem a minha área, fiquei bastante apreensiva e ansiosa porque não fazia ideia sobre o que escrever. Foi-me pedida criatividade, um artigo diferente, um artigo apelativo e um tanto ao quanto informal.

Ao comentar com a minha mãe enquanto bebíamos a nossa tradicional cevada de sábado à tarde, ela lembrou-se da vizinha da minha tia, a Maria Antónia. Uma autêntica personagem saída daqueles contos para crianças, uma senhora com um ar bondoso, de riso fácil, sempre bem-disposta, com uma frase simpática na ponta da língua para quem a interpela.

Hesitei mas arrisquei e falei com a minha tia. Expliquei-lhe que tinha de escrever um artigo sobre cuidados seniores, e que a minha mãe se lembrou da Maria Antónia que trabalha à uma vida inteira num lar de idosos. A minha tia acedeu a falar com ela, que se prontificou a encontrar-se comigo. No seu jeito descontraído propôs pedir autorização à direcção do lar para que eu acompanhasse um turno dos dela, e visse como funciona um lar de idosos. A autorização foi concedida, e a aventura esperava-me.

A Maria Antónia, como tantas outras pessoas trabalha por turnos, e na semana que agendamos o acompanhamento estava a fazer o turno da noite. Por um lado, foi melhor porque não senti que perturbei a sua rotina, melhor dizendo, não me senti uma intrusa, pois é durante o dia que existem mais solicitações por parte dos utentes. A Maria Antónia teve uma maior disponibilidade para me explicar o funcionamento, as grandes alterações que a direcção da instituição implementou e que vieram modificar por completo a dinâmica de trabalho da equipa de prestadores de cuidados. Por outro, não vi a azáfama que devem ser os turnos de dia, com muitas mais auxiliares, e toda uma agitação normal num equipamento social como este. Desempenha as funções de auxiliar de geriatria, com 52 anos trabalha nesta área desde os 22, entre as várias formações que foi fazendo ao longo do seu percurso profissional, foi-me dizendo que as coisas mudaram imenso, para melhor claro. As novas tecnologias vieram permitir-lhe fazer o seu trabalho de forma mais eficaz e tranquila.

A Maria Antónia é daquelas pessoas que são apaixonadas pelo que fazem, constatei isso à primeira vista, pela forma como fala e como executa as suas tarefas, não coloca “pós de perlimpimpim” mas que estranhamente se assemelha a algo do género. Considera que o seu trabalho é essencial para dar conforto e, muitas vezes, alento àqueles que impossibilitados de estarem nos seus domicílios, estão institucionalizados, nas suas palavras “enquanto os outros dormem, eu cuido dos meus meninos e meninas”. Reparando na minha expressão de espanto relativamente ao uso das palavras “meninos” e “meninas”, respondeu-me prontamente que é a forma carinhosa como trata os utentes, não gosta de empregar a palavra “velhos”. “Ora, velhos são os trapos, e eles nesta altura da vida precisam de ser tratados com todo o carinho, como se fossem crianças, precisam de sentir que alguém se preocupa e gosta deles. Os meus meninos e meninas são muito mimados, sabia? (risos).”

Conforme combinado fui ter com a Maria Antónia a sua casa, ofereceu-me um café forte advertindo-me que a noite seria longa, e depois pusemos-nos a caminho porque gosta de chegar antes da hora. O turno iniciou-se às 23 horas e terminou às 7 horas do dia seguinte. Ao chegarmos ao portão da instituição constatei que o abriu através de uma aplicação no seu smartphone. Questionei, e entre risos, foi-me dizendo que desde que o lar aderiu às novas tecnologias nunca mais nada foi igual, “é o futuro” (risos). Assim que entramos no edifício passou o seu cartão de funcionária por um leitor que automaticamente registou a sua entrada, antecipando a minha pergunta, respondeu “aqui não há falhas, o nosso chefe em casa consegue ver a que horas entramos e saímos, as tecnologias, sabe? (risos).

Aguardei numa sala enquanto se fardava. Era confortável mas parecia uma sala técnica, com um monitor onde apareciam vários registos, telefones portáteis e até tablets. A Maria Antónia apresentou-me às colegas e explicou que eu estava ali para ver o funcionamento do lar no turno delas com o objectivo de escrever um artigo para uma revista. Todas quiseram dar uma opinião sobre as mudanças feitas recentemente, umas concordavam outras nem por isso, com um piscar de olhos e um aceno de cabeça tirou-me dali e começou uma visita guiada pelo lar. Apercebi-me que antes de sair pegou num dos portáteis que estavam em cima da mesa. De imediato perguntei porque tinha de andar com ele, foi quando começou a elucidar-me relativamente ao funcionamento do sistema de auxílio sénior implementado recentemente.

Num tom bastante circunspecto, que ainda não tinha utilizado, a Maria Antónia começou por explicar-me que trabalhava naquela instituição há 30 anos, já tinham passado por ela, várias directoras técnicas, gestores, administradores e que de alguma forma, uns mais do que outros, foram modernizando as instalações. Mas a grande preocupação de todos eles foi sempre a própria infraestrutura. Tornar as áreas comuns e os quartos mais confortáveis, as áreas de serviço mais funcionais, no entanto a componente da segurança nunca tinha sido abordada. Durante anos houve um “braço de ferro” entre a direcção técnica e a equipa de auxiliares. O motivo prendia-se com a questão de alguns utentes queixarem-se aos familiares que passavam noites inteiras a gritar por ajuda e que ninguém respondia ao chamado. Afirmavam que durante o dia as auxiliares não passavam nos quartos para saber se estavam bem, ou se precisavam de cuidados. Outro motivo para esta “guerra” era o facto de alguns utentes conseguirem fugir, serem levados novamente pelos familiares. Houve até um utente que esteve desaparecido vários dias e foi a polícia que o encontrou cheio de frio e de fome, levando-o de volta à instituição. Ora, a Maria Antónia afirmou “eu compreendia a parte da direcção técnica que “apertava” connosco porque era, igualmente, “apertada” pela direcção do lar que pedia explicações coerentes para se justificar perante as famílias. O sistema que tínhamos não nos permitia estar contactável a todo o momento. Falando por mim e não pelas minhas colegas, eu na ronda da noite de X em X tempo ia verificar quarto a quarto para certificar-me que estavam todos bem. Durante o dia a correria é maior, não posso afirmar que em 30 anos de trabalho não me tenha escapado que um utente precisasse de mudar a fralda ou a posição em que estava deitado para não criar chagas. Mas somos todos humanos e temos falhas. Relativamente às fugas, não conseguíamos controlar todas as saídas e não é fácil quando os utentes sofrem de algum tipo de demência. ” https://www.chamadadeenfermeira.pt/controlo-acessos/ Enquanto caminhávamos pelos corredores vazios e silenciosos, era perceptível a angústia na sua voz. De facto, era algo que a causticava, saber que por vezes houve utentes que não foram tratados como deveriam ser. Mas logo de seguida, e com um sorriso aberto, falou da enorme transformação que houve recentemente, “uma autêntica revolução” (risos).

A direcção da instituição após ponderar as necessidades apontadas pela direcção técnica decidiu “abrir os cordões à bolsa” (palavras da Maria Antónia), e fazer um investimento em termos tecnológicos que veio dinamizar o trabalho da equipa. Enquanto isso, o telefone sem fios que trazia consigo tocou, a Maria Antónia colocou-o em alta voz para eu poder ouvir a mensagem automática “auxílio à cama 2, quarto 107”. Era um pedido de ajuda de uma utente, de imediato subimos ao piso 1, depois de ser dada a devida autorização entrei no quarto. Percebi que desligou o alarme junto à cama, e perguntou à D. Amélia o que precisava. Era apenas um copo de água porque tinha a boca muito seca, houve uma troca de palavras, aconchegou-lhe os cobertores, um beijinho na testa e “se precisar de mais alguma coisa, é só carregar na pêra que venho logo”, voltou a carregar num botão à saída. Depois explicou-me que este pedido de auxílio ficou registado num software, com a hora a que chegou junto da D. Amélia, a hora a que terminou e saiu do quarto. A Maria Antónia elucidou-me que a solução pela qual optaram permitiu a interligação de todos os sistemas. Desde o video-porteiro na entrada do edifício, o qual permitia abrir a porta através daquele telefone sem fios, ao controlo biométrico, ao controlo de acessos às entradas e saídas, à prevenção das quedas, à detecção de saída da cama e/ou quarto, ao controlo de utentes com problemas de orientação. Tratava-se de uma solução de integrada de alerta, através de comunicação telefónica, visual e registos de eventos de situações de chamada e/ou alerta. Todos os eventos ficavam registados numa base de dados para efeitos de gestão de qualidade dos serviços prestados, nomeadamente quanto ao tempo que levavam as auxiliares a responder aos pedidos de auxílio dos utentes. Permitia, ainda, fazer o controlo das rondas, com o respectivo registo dos tempos despendidos com cada utente. Em termos de controlo, a directora técnica iria receber na manhã seguinte um email com um relatório onde constavam todos os registos referentes ao turno da noite, os pedidos de auxílio, o registo das rondas efectuadas. Deste modo, mantinha-se permanentemente informada relativamente a cada turno. A Maria Antónia confidenciou que este sistema as protegia relativamente às “acusações” de que por vezes eram alvo, uma vez que quando algum utente se queixava que ninguém lhe prestava ajuda, os familiares poderiam consultar os registos e verificar que tal não correspondia à verdade. Afirmou que “agora estamos sempre contactáveis, se eles carregarem na pêra a pedir ajuda, nós sabemos exactamente quem é que a solicitou e mais rapidamente prestamos auxílio, já não há desculpas para o “não ouvi”, “não vi os sinalizadores”, enfim…isso era matéria para um outro artigo (risos).”

Passava pouco da meia-noite, a Maria Antónia começou a fazer a ronda habitual. Passou em todos os quartos e verificou se estava tudo bem. Reinava um silêncio ensurdecedor em cada piso, mas a atmosfera era de uma tranquilidade que não imaginava que fosse possível num lar de idosos. Perto das 3 da manhã, tocou um alerta e ouviu-se “auxílio ao WC, quarto 212”, a Maria Antónia saiu disparada e subiu ao piso 2. De rosto fechado disse-me “é o Sr. Américo, ele não anda nada bem, perde o equilíbrio com muita facilidade, por favor espere aqui à porta.” Do lado de fora consegui perceber que de facto o utente estava caído no WC e a Maria Antónia trazia-o de volta para a cama. Ouvi-a dizer-lhe num tom amigável “então não podia ter apertado a pêra que eu tinha vindo ajudá-lo, eu sei que não gosta de incomodar, mas é para isso que aqui estou, para o ajudar. Por favor, chame as vezes que precisar, sejam 10 ou 20 vezes, não quero que se magoe.” O Sr. Américo agradeceu e prometeu que a chamaria se precisasse de ir novamente ao WC. A Maria Antónia saiu bastante taciturna do quarto. Começou por dizer que “este utente ficou recentemente viúvo, e optou por vir para cá para não incomodar os filhos. Diz que eles têm vidas muito ocupadas e não quer atrapalhar ninguém. Passa os dias a ler e a passear pelo jardim. É muito introspectivo mas tem sempre uma palavra agradável para todas nós, e não gosta de aborrecer. Já alertei a Dra. Alice, a directora técnica, que acho que ele não anda bem, está com perda de equilíbrio. Na semana passada, troquei o turno com uma colega, e estive à noite. Perto das 5 da manhã recebi um alerta que ele tinha caído da cama. Nós temos sensores que nos alertam quando os utentes saem da cama, portanto tenho de reforçar que é preciso que a Dra. Maria do Carmo, a médica da instituição, veja o Sr. Américo.” Questionei-a relativamente aos sensores, de imediato esclareceu-me que estes sensores de cama são imperceptíveis. Emitem um alerta sempre que o utente se levanta, ou quando passa um determinado tempo sem se mexer. Têm, igualmente, uns sensores de infra-vermelhos em alguns quartos, para os utentes que sofrem algum tipo de demência, como alzheimer, desta forma sabem quando estes saem. A instituição adquiriu umas pulseiras para que estes utentes possam circular livremente mas de forma segura pelo edifício. Esse sistema de alta tecnologia baseado na identificação de pessoas à distância, permite saber a localização exacta dos utentes, evitando que eles fujam, se percam ou sofram algum tipo de acidente. Não existindo barreiras físicas, estes não se sentem vigiados nem enclausurados. No entanto, o sistema permite o controlo efectivo da sua posição, dando uma certa tranquilidade à equipa de auxiliares. https://www.chamadadeenfermeira.pt/chamada-de-enfermeira/

O resto do turno foi tranquilo, acompanhei mais uma ronda pelas 5 da manhã. Vi o dia a romper com uma cevada bem quente na mão. Ouvi atentamente as histórias das colegas da Maria Antónia, algumas bem interessantes que me arrancaram algumas gargalhadas. Mas o que mais me impressionou foi a dedicação destas mulheres a pessoas estranhas que rapidamente passam a ser família. É a palavra certa, família. Nesta instituição estão cerca de 60 idosos em regime de internato, maior parte deles com graves problemas de saúde que requerem muitos cuidados. No entanto, foi uma boa surpresa constatar que ainda existem sítios nos quais os idosos são tratados com a dignidade que lhes é muitas vezes negada nos seus próprios domicílios, a dignidade que nos é devida enquanto seres humanos. Têm vindo a público, várias notícias que alguns lares de idosos têm sido encerrados por falta de condições. Não devemos generalizar, pois existem muitos que cumprem todas as normas impostas, e não se coíbem de investir nas novas tecnologias de modo a melhorar a qualidade dos serviços prestados aos seus utentes.

Quanto à Maria Antónia, não tenho palavras para agradecer o carinho e a paciência que teve comigo, sempre a questioná-la sobre tudo. É um ser humano extraordinário com uma dedicação fora do comum ao seu trabalho. Como me disse, e bem, “lido todos os dias com vidas humanas, com as suas inúmeras fragilidades, é que quando envelhecemos voltamos a ser crianças, com os medos e angústias que temos quando estamos a crescer”. Não poderia concordar mais. Apesar de não ser a minha área, e de ter tido dúvidas relativamente ao tema, adorei esta experiência, ajudou-me a ver no presente o futuro.

Nota: o texto não foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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